Nutrição de lodos ativados: a relação C:N:P

Quando uma ETE por lodos ativados perde eficiência, como o lodo que não decanta, espuma no decantador e sólidos arrastados no efluente, a primeira suspeita costuma ser de problema operacional. Muitas vezes, porém, a biomassa está apenas desnutrida: falta nutriente, não bactéria.

A RELAÇÃO C:N:P
A comunidade microbiana precisa de carbono, nitrogênio e fósforo em proporções adequadas para crescer, formar flocos densos e decantar. A referência clássica é DBO:N:P ≈ 100:5:1: o carbono é fonte de energia e construção celular; o nitrogênio entra na síntese de proteínas e enzimas; o fósforo compõe ácidos nucleicos e o ATP.
Quando falta N, as bactérias não sintetizam proteínas e o crescimento fica lento; sem P, a reprodução celular e a biomassa ativa diminuem. A proporção, porém, não é universal, varia com a idade do lodo, o tipo de substrato e a configuração do processo.
QUANDO FALTA NUTRIENTE
Efluentes industriais ricos em carbono e pobres em N e P (laticínios, cervejarias, papel e celulose, alimentos e bebidas) são os casos típicos de desequilíbrio.
A falta de nitrogênio e fósforo favorece bactérias filamentosas e estimula a secreção de exopolissacarídeos (EPS) por alguns grupos de bactérias, gerando bulking filamentoso e viscoso. O resultado é o mesmo: índice volumétrico de lodo (IVL) elevado, perda de sólidos e efluente turvo.
DIAGNÓSTICO
Medir os nutrientes disponíveis (amônia e ortofosfato, por exemplo) no tanque de aeração e no efluente, e não apenas no afluente, combinado com IVL alto e observação microscópica de filamentos, confirma a limitação nutricional. Problemas de aeração, toxicidade e variação de carga produzem sintomas semelhantes, por isso "ETE doente" é hipótese operacional, não diagnóstico.
CORREÇÃO E BIOAUMENTAÇÃO
A correção é suplementar N (com ureia e produtos à base amônia), P (ácido fosfórico, fosfatos), ou produtos com ambos nutrientes (fosfato monoamônico - MAP ou diamônico - DAP), com dosagem calculada pela carga de DBO e monitoramento do residual.
A bioaumentação, que é a adição de microrganismos selecionados, é útil quando a nutrição já foi equilibrada, para degradar compostos recalcitrantes e acelerar a recuperação após choques, mas não a substitui: inocular bactérias em tanque desnutrido é regar planta em solo pobre, pois os microrganismos adicionados enfrentam a mesma limitação e não persistem.
Os resultados promissores em bancada nem sempre se confirmam em escala real. A ordem correta é diagnosticar, nutrir e só então considerar a bioaumentação como reforço. Antes de tratar a ETE como doente, verifique se ela está bem alimentada.
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